Tuesday, January 26, 2010
Friday, January 22, 2010
Sunday, December 20, 2009
"As incontáveis vésperas" - Wanda Ramos
Assim como Sara: enquanto pudeste fazendo-te convencida de que te feriras, incauta a unha raspando ao lavares em manhã de frio apressado esses sítios esconsos, oblíquos, e o sangue que não estancava, as roupas tingindo-se, comprometendo-te, ou seria doença mortal, daquelas entre-dentes comentadas pela mãe com as amigas e, portanto: o pânico recalcado, o segredo, diria, a diferença de tu assim nova assim condenada."
Monday, December 14, 2009
Saturday, October 24, 2009
"Queres crescer e depois não cabes na banheira" de Miguel Castro Caldas
"Deito contas à vida: a minha mãe morreu com setenta e sete e eu já vou nos sessenta e quatro - é certo que estou quase no fim - para trás, um corpo que foi dar nisto, a sustentar um homem, enfim, uma espécie de homem,e todos os outros à volta a morrer, para trás é isto, mortos a instalarem-se nos ombros dos vivos. Por isso, creio eu, alguns ficam corcundas e outros parece que andam constantemente a fazer força para cima com os ombros, como se estivessem a suportar um peso insustentável, como o mundo. Mas são raros aqueles que se conservam leves. Para trás é isto, é mesmo isto. Para a frente, pergunto-me, olho para o meu rosto no espelho e não sei se sou eu ou se é outra pessoa que olha para mim do outro lado, a fingir que está tão dentro de mim como eu, a esforçar-se por ser uma boa artista do filme da minha vida, ou então sou eu adiantada, um bocadinho mais velha, a mostrar-me como será um ano depois."
"Essa alegria, percebes, trazer os croquetes de volta, trazer o pai e os brinquedos e a infância e a nitidez da vida de volta."
"Não pude queixar-me a ninguém da saudade dos croquetes."
"Eu vejo lá fora e eles não vêem cá para dentro, é a vantagem. É que lá fora o vidro é um espelho, e cá dentro é a parte de trás do espelho, lá fora as pessoas chocam com o próprio olhar, sem se darem conta de que afinal olham é para mim, cá dentro. Por exemplo, há uma rapariga bonita (no meio de milhões, mas esta não sei porquê fixei) que portanto passa todos os dias ao lado de si mesma, aproveitando sempre para ajeitar o cabelo, a medo de uma esquina de fotografia, ou de encontrar, e não estar preparada, o seu humano da sua vida, ao longo do passeio, cruzar com esse ser humano e estar a pensar na morte da bezerra, o sobrolho carregado, por isso é importante o pequeno toque no cabelo, sem abrandar passo, sem que ninguém note, e eu vejo isto tudo do lado de cá, a metade do sorriso..."
"a minha avó lá fora a atravessar-se na janela e espreitar cá para dentro sorrindo para ele, para o nevão, um sorriso sem tristeza nem alegria, embora pudesse confundir-se com uma certa tristeza para observadores destreinados, era o sorriso mais bonito do mundo, o que agora reconheço (é a única coisa que hoje reconheço)"
"É o meu nome, o meu pai tinha trinta anos no dia da revolução, eu é que tinha dois, eu é que não vivi nada, passo a vida a dormir mas sei que falta um minuto para tocar o despertador. O meu pai constuma dizer-me que é preciso acordar. Talvez seja da força do hábito, mas antecipo sempre o despertador, um dia aconteceu que o relógio avariou a meio da noite e eu acordei à hora exacta do toque, sete e cinquenta e nove em ponto..."
"...não há nada como pôr o sorriso na boca e entrar na rua com a cara toda..."
"Ao sereno da Noite" de Helder de Sousa
"Eu pelo contrário, não adoro nem detesto a vida. O que odeio são estas noites que me desocupam, que me remetem para o vazio, onde se ergue todo o cenário de arquétipos."
"E tudo era tão bom, tao agradável e belo, que, muitas vezes, suspendia esses momentos, bruscamente, porque me achava indigno deles."
"Uma chuva miúda começou a cair. As pessoas abriam os guarda-chuvas e apressavam o passo. Pensei «Para onde se dirigem? Que força é esta que impele cada um de nós a caminhar sempre em frente, sabendo que todos os caminhos vão dar a esse abismo de silêncio que é a morte?»"
"Se me lembro agora tão nitidamente desse tempo, é porque os lugares marcam com a vida de todos nós um encontro permanente; é porque não lhes podemos fugir; é porque nele deixámos estigmatizado um destino; é porque com eles encetámos um diálogo interior que nos fez prisioneiros. E a imagem rectilínea que guardamos, é uma concepção hipostasiada, de corpo e alma, que nos acalenta recordações felizes e infelizes, e nos dimensiona os dias sobre esta terra de passagem. São espaços frequentados pela nossa infância. Enquanto crescemos, ou mudamos de rumo, ou subimos na vida, eles, mudos, ali ficam sempre iguais, tocando-nos no ombro sempre que passamos apressados a seu lado. por isso, cada encontro tem muitas vezes o sabor da distância, da saudade, da incerteza, do invisível."
"Não sei o que procuro desta noite. Não sei porque não fui direito a casa. Aí, com certeza, não teria forças que vencessem o trabalho de me levantar do sofá, de apagar as luzes, de descer no elevador, de entrar no carro, de o pôr a trabalhar. Não sei. Não sei! Ou talvez saiba, mas não quero encarar a realidade que nos traz a palavra no momento certo...Conheço-me o suficiente."
"Que faço eu aqui? Que força foi esta que me trouxe ao encontro desta vila muda, habitada pelas sombras das ondas batendo no areal? Lugar incapaz de partilhar os meus gemidos, de os ouvir, de os registar, porque eles partem do fundo da garganta, onde todos os gemidos naufragam e ficam séculos adormecidos. Nada me liga a este espaço."
"A noite está horrivel. As ruas desertas. As pessoas acoitam-se nos cinemas, nos cafés, nos bares, nos teatros. Em casa, ficaram todas quantas sabem o valor do olhar, observando o movimento calmo da luz que projecta o candeeiro; que escutam os passos do silêncio através das divisões, ou o murmúrio das sombras quando percorrem o pensamento. Mas a cidade devora as pessoas. Tudo é engolido neste complicado novelo. As pessoas despersonalizam-se e não sei se alguma vez nos cruzámos numa artéria qualquer, sem nos reconhecermos."
"Quanto a vida nos obriga a mentir! Mentimos para fugir de nós próprios, como se fosse possível continuar a fugir indefinidamente. Com efeito, há sempre um momento em que nos colocamos diante de nós mesmos."
"Hoje não sei qual de nós falhou. Nem mesmo se algum de nós falhou."
"As lágrimas que assolam por causa da recordação."
"...entre ti e mim há um abismo impossível."
"Nunca soube como vencer o quotidiano, como me desembaraçar dos dias da lengalenga em que se formam."
"No declinar da alegria, quando se faz a passagem para o desconhecido, temos a sensação que não fomos nada; que nada nos sobrou, porque afinal, quase não tocámos o estado de graça, não cumprindo o nosso destino neste mundo."
Monday, October 12, 2009
As mulheres do meu pai - Agualusa
“Só admito propostas honestas…”
“Conheço esse texto. Está gasto. Até eu já o usei, Experimenta outro.”
“Eu também gosto de visitar Lisboa, vou às livrarias, ao cinema, vejo exposições de fotografia, e acho tudo isso muito bom para lavar a alma. Mas nunca fico mais de duas semanas. Três no máximo. A melancolia portuguesa corrompe o espírito, escurece-o, como o frio do Outono amarelece e mata as folhas das árvores.”
“Pode ser que tenha razão. Afinal, o que permanece em nos depois que a viagem termina? Em mim, invariavelmente menos que o mais singelo verso. Imagens dispersas, a memória difusa de um cheiro e de uma cor. “ “Viajar é esquecer.”
“A morte é tão triste quanto a vida, mas dura mais.”
“Entretanto, lá fora, há um mundo que se acaba e outro que se prepara para nascer, e eu não sei muito bem a qual pertenço.”
"Leve os sonhos a sério. Nada é tao verdadeiro que não mereça ser inventado."
A Farsa – Raul Brandão:
“Ninguém lhes conhece a história e elas próprias ignoram a sua grandeza. Sofrem, sacrificam-se, anulam-se, desaparecem. Ninguém da pela existência dos que choram e cumprem o seu destino sem frases. Não importa. Não é coisa que se conte, a vida duma árvore – e uma árvore frutifica, dá sombra e lume, sustento e amparo: é o nosso tecto: é nossa amiga. O que é grande, simples e profundo passa despercebido.”
“Entre o projecto e a execução há um mundo a transpor.”
“Passou uma hora ou um século?”
Friday, September 25, 2009
SEVEN POUNDS
And in seven seconds I shattered mine..."
- Seven Pounds movie
Tuesday, September 22, 2009
Up in the air - Fevereiro 2010
This is going to be a little difficult so stay with me…
How much does your life weight?
Imagine for a second that you're carrying a backpack
I want you to pack it
With all the stuff that you have in your life
Starting with the little things
The gunshelves, in drawers, the knickknacks
Than you start adding largest stuff
Clothes, table top appliances, lamps, your TV
Backpack should be getting pretty heavy now
You go bigger
Your couch, your car, your home
I want you to stuff it all into that backpack
Now, I want you to fill it with people
Start with casual acquaintances
Friends of friends
Folks around the office
And then you move to the people that you trust with your most intimate secrets
Brothers and sisters, your children, your parents, and finally your husband, wife, boyfriend and girlfriend
Get them into that backpack
Fill the weight of that bag
Make no mistake
Your relationships are the heaviest components in your life
All those negotiations, and arguments, and secrets, compromise you
The slower we move the faster we die
Make no mistake
Moving is living
Some animals were meant to care with each other
To live symbiotically over life time
Star crossed lovers
Monogamous swans
We are not swans we're sharks
Friday, September 11, 2009
António Lobo Antunes....Grande...muito grande
"Tenho ideia que anda uma dor por aí, mas não estou certa de me pertencer"
"A dor que não estou certo de pertencer abranda, e depois volta,digo-lhe
-Olá dor...
e não lhe dou confiança. Não se deve dar confiança nem a nós,há que nos pôr em ordem. Põe-te em ordem António,tu que durante a vida inteira detestaste obedecer. Aliás não te podes queixar, passaste o tempo a fazer o que querias. Agora, sei lá porquê, veio-me à ideia o meu irmão Pedro, o silêncio dele. Gosto de silêncio, de escutar palavras não ditas. Também gosto de pessoas que falam porque me permitem ir embora continuando ali. Elas falam, digo que sim com a cabeça e não estou. Estou onde? Na varanda da Beira a olhar a serra, por exemplo. Ou em parte nenhuma, num esconso interior, sentado no chão, de joelhos na boca, escutando o que não há. Desde que me lembro escuto o que não há, deixo que as coisas se inventem cá dentro, a minha cabeça é uma praia que a água invade e esquece."
"-Sente dores,maezinha?
Thursday, September 10, 2009
Sunday, August 30, 2009
"Aquele querido mês de Agosto"
"-Há sons fantasma. Como é que é possível haver sons que não estão lá?
-É possível é. Tecnicamente não. As coisas que eu quero vêm ter comigo. Não vão ter com vocês. Porque eu sou diferente de ti.
- Gostava de ter as coisas que estão lá. Só isso. Se tu ouvisses aquilo que eu ouvi, tu vias que os sons não estão lá. Gostava de ter o som que existe.
- As pessoas estão sempre a ouvir coisas que não interessam nada. Não existem porque eu não estou lá. Existe é o Marante a cantar numa floresta.
- Pah,oh Vasco, se é teu, controla-te."
Última cena do filme "Aquele querido mês de Agosto"
É daquelas coisas que ficam, e uma pessoa não se consegue esquecer mais...






